Como aproveitar o forte interesse dos investidores nos minerais críticos da América Latina

Como aproveitar o forte interesse dos investidores nos minerais críticos da América Latina

A América Latina é estratégica para as cadeias de suprimento de minerais críticos e respondeu por 75% das fusões e aquisições globais no setor de mineração em 2025, afirma Derek Chubb, líder da indústria de mineração para a região na consultoria ERM.

No entanto, embora a intensa geopolítica esteja acelerando a entrada de capital no setor de mineração em países como Chile, Argentina, Peru e Brasil, a execução de projetos precisa ser acelerada para transformar o interesse dos investidores em aumentos tangíveis de produção e em valor de longo prazo.

Isso, além de impulsionar a exploração mineral, acrescentou o especialista nesta entrevista à BNamericas.

BNamericas: É necessária uma coordenação regional mais forte na indústria de mineração da América Latina para aproveitar a crescente demanda global por minerais?

Chubb: Sim, mas deve ser uma colaboração prática que acelere diretamente a entrega dos projetos. Três áreas se destacam:

• Infraestrutura compartilhada e agrupamentos regionais de projetos: Na prática, muitos projetos na América Latina ainda são desenvolvidos de forma isolada, o que limita a escala. Exemplos como o Corredor de Mineração do Sul do Peru ou o desenvolvimento de cobre emergente em San Juan, Argentina, mostram como o planejamento coordenado de transporte, energia e água pode destravar múltiplas jazidas simultaneamente e melhorar a eficiência de capital.

• Colaboração entre os atores do ecossistema, governos regionais, instituições regulatórias, empresas de mineração e investidores para ajudar a reduzir gargalos e ampliar benefícios, incluindo iniciativas como a ELAMI e a Ponte Andina [reuniões em nível regional para discutir mineração].

• Desenvolvimento de talentos e de capacidades técnicas. A especialização em mineração continua concentrada em alguns polos, como o Chile, enquanto o investimento se expande pela região. Maior colaboração em programas de capacitação e mobilidade da força de trabalho poderia ajudar a enfrentar as restrições de capacidade.

BNamericas: Os Estados Unidos conseguirão reduzir sua dependência da China em minerais críticos até 2030? Quais países da América Latina seriam mais beneficiados?

Chubb: Os EUA estão acelerando os esforços para diversificar as cadeias de suprimento de minerais críticos, mas reduzir totalmente a dependência da China até 2030 continua sendo ambicioso, particularmente em processamento e refino, áreas em que a posição da China ainda está profundamente enraizada. O que é mais provável é um reequilíbrio parcial, em vez de um desacoplamento completo dentro desse período.

Há um engajamento dos EUA muito mais forte na América Latina. Desde 2025, os EUA se comprometeram com mais de US$1 bilhão (bi) em projetos de minerais críticos na região, e estruturas mais amplas de cooperação, como a parceria EUA–Argentina, apontam para potenciais pipelines de investimento superiores a US$130bi. Há também uma participação mais direta de agências do governo dos EUA no apoio ao desenvolvimento de projetos e na garantia das cadeias de suprimentos.

Ao mesmo tempo, a China continua a expandir a sua presença por meio de um modelo verticalmente integrado, combinando investimentos em mineração a montante com infraestrutura e logística. O resultado é o surgimento de dois sistemas paralelos de capital e cadeias de suprimento competindo em toda a região.

BNamericas: Sobre os países latino-americanos em melhor posição para capitalizar essa mudança..

Chubb: Aqueles que conseguem combinar escala de recursos com estabilidade e marcos regulatórios de investimento confiáveis. Chile e Peru continuarão sendo centrais, dada sua base de cobre, a Argentina está cada vez melhor posicionada em lítio e em distritos emergentes de cobre, e o Brasil também provavelmente desempenhará um papel fundamental. No Brasil, o apoio respaldado pelos EUA em projetos como o desenvolvimento de terras raras de Serra Verde destaca seu papel na diversificação das cadeias de suprimento para além da China.

BNamericas: As fusões e aquisições (M&A) no setor de mineração na região continuarão a aumentar?

Chubb: Sim, uma forte concentração dos orçamentos globais de desenvolvimento de nossos clientes direcionados à América Latina indica que essa tendência continuará. As empresas estão em busca de escala, ativos de vida útil mais longa e exposição a commodities voltadas para o futuro, como o cobre, que podem ser encontradas na América Latina. Elas também buscam gerenciar riscos e capturar potencial de valorização por meio da consolidação de parcerias e da reconfiguração de portfólios.

A América Latina detém o potencial para definir a próxima geração de portfólios de mineração. Para continuar viabilizando a atividade de M&A, os Estados precisarão moldar o ambiente propício em termos de infraestrutura, políticas e capacidade, de modo a gerar confiança de que o valor do capital privado pode ser concretizado em cada país. 

BNamericas: A ERM participou da última Convenção Internacional de Exploração Mineral PDAC em março. Quais foram as principais conclusões?

Chubb: A conversa na PDAC deste ano pareceu mais urgente do que em anos anteriores. Houve muita discussão de que a demanda ou a geologia não são as restrições, e sim a entrega. A América Latina já fornece cerca de 40% do cobre global e detém mais de 50% dos recursos de lítio, mas o ritmo de desenvolvimento de projetos não está acompanhando a demanda.

Atender à demanda projetada exigirá um pipeline de desenvolvimento tremendamente maior e com fluxo muito mais rápido do que o existente atualmente. A competitividade está mudando: o diferencial não é o tamanho do recurso, mas a capacidade de entregar projetos que sejam licenciáveis, financiáveis e socialmente viáveis dentro de cronogramas acelerados.

Ao mesmo tempo, a América Latina está cada vez mais no centro dos fluxos globais de capital moldados pela geopolítica. Quase 75% das fusões e aquisições globais em mineração em 2025 foram direcionadas à região, refletindo sua importância estratégica. Também estamos observando dois modelos de investimento paralelos: a China continua a realizar investimentos verticalmente integrados em mineração e infraestrutura, enquanto os EUA e seus parceiros estão ampliando o financiamento e o engajamento institucional para garantir cadeias de suprimento alternativas.

Essa competição geopolítica está atuando como um vento a favor para a região, acelerando o investimento e reforçando sua relevância global. No entanto, ela também eleva o nível de exigência: atrair capital não é o principal desafio, o verdadeiro teste é se a América Latina conseguirá converter esse impulso em projetos entregues em grande escala e com rapidez.

BNamericas: A atual atividade de exploração na América Latina é forte o suficiente para sustentar uma nova onda de projetos de mineração? 

Chubb: A América Latina continua a atrair a maior fatia dos orçamentos globais de exploração. A S&P Global estima os gastos com exploração na região em mais de US$3bi em 2025. Na América Latina, a geologia é atraente, com grandes oportunidades de desenvolvimento de projetos ainda abertas às mineradoras, porém o ambiente de políticas públicas e de infraestrutura é um fator limitante em alguns países, como Venezuela, Colômbia e Equador. As políticas costumam mudar na região e isso, por sua vez, afeta a confiança dos investidores devido ao longo ciclo de desenvolvimento associado às minas (6 a 18 anos), que se estende além dos ciclos políticos.

A infraestrutura continua sendo uma preocupação central, assim como a disponibilidade de energia, estradas e outras capacidades habilitadoras, o que pode ser um desafio em áreas remotas com potencial geológico. Isso pode ser observado nas províncias argentinas ricas em lítio e cobre, onde será necessário desenvolver um capital de infraestrutura significativo em paralelo ao capital de mineração para viabilizar o acesso econômico a esses projetos.

O crescimento da exploração pode ser sustentado na América Latina desde que os governos continuem a transmitir confiança às empresas de que seus investimentos poderão ser concretizados.

BNamericas: A América Latina conseguirá se desvincular de seu papel tradicional de exportadora de matérias-primas e avançar na cadeia de valor?

Chubb: A oportunidade é real, mas provavelmente será desigual e seletiva, em vez de transformadora em toda a região. A principal restrição não é a disponibilidade de recursos, mas se os países conseguem construir os sistemas industriais, logísticos e regulatórios necessários para apoiar o processamento e as atividades a jusante.

O Chile, por exemplo, já conta com uma base desenvolvida de fundição e refino, acesso tanto às rotas comerciais do Pacífico quanto do Atlântico e uma sólida plataforma de energias renováveis, o que o posiciona para capturar mais valor internamente, especialmente em cobre e lítio. No entanto, mesmo no Chile, desafios relacionados a licenciamento, custos e competitividade significam que ampliar a capacidade de processamento não é algo simples.

Em outros países, o cenário é mais fragmentado. O Brasil se destaca por seu ecossistema de mineração mais integrado, com processamento doméstico, serviços e logística já estabelecidos. A Argentina está em uma fase mais inicial do ciclo, mas há um interesse crescente em desenvolver capacidade de processamento de lítio em paralelo à produção upstream. Muitos países da região ainda carecem da infraestrutura, dos sistemas de energia e das capacidades técnicas necessárias para ir além da extração. Para ter sucesso, esses países precisam combinar a dotação de recursos com energia competitiva, infraestrutura, qualificação de mão de obra e marcos regulatórios estáveis.

A América Latina provavelmente avançará na cadeia de valor em segmentos específicos, como refino, processamento ou serviços especializados de mineração, em vez de desenvolver cadeias completas de manufatura de ponta a ponta. 

(A versão original deste conteúdo foi escrita em inglês)

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