O Brasil viu o início oficial da campanha eleitoral durante o fim de semana, com a disputa pela presidência da república devendo ser bastante acirrada, porém concentrada em dois nomes, o atual presidente de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, e o candidato de direita, o senador Flávio Bolsonaro.
A campanha para as eleições de outubro, quando os brasileiros irão às urnas votar para presidente, governadores estaduais, deputados e senadores, iniciou-se oficialmente em 16 de agosto, com todos os candidatos participando de eventos públicos para marcar o início da corrida eleitoral.
Em relação à presidência da república, há 13 candidatos registrados para a eleição, porém todas as pesquisas divulgadas até agora mostram apenas dois candidatos com maiores chances de vencer o processo.
Lula tem se mantido à frente das intenções de voto nas pesquisas recentes, tanto para a eleição em primeiro turno quanto para o segundo turno. Porém, Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, tem se mantido próximo a Lula – em algumas pesquisas, inclusive empatado, se considerada a margem de erro de tais levantamentos – , apontando para uma disputa acirrada entre ambos.
Os dois candidatos representam linhas ideológicas diferentes, e os impactos dos resultados também podem se dar em diferentes graus.
“Com pesquisas recentes mostrando Lula como favorito para vencer as eleições, devemos ter um impacto negativo referente ao desempenho da bolsa de valores e também da moeda brasileira, porque o investidor precifica um cenário de gasto público maior e pressão inflacionária à frente. Mas, se tivermos uma sinalização nas pesquisas de que Flávio Bolsonaro ganha tração, podemos ter uma melhora dos preços dos ativos, pois ele teria supostamente uma vontade maior de cortar gastos”, disse à BNamericas Luis Otavio Leal, economista-chefe da gestora de ativos G5 Partners.
“A despeito desse comportamento dos ativos nas próximas semanas, em termos práticos, os indicadores econômicos para 2027 pouco mudam. Os efeitos econômicos só serão realmente vistos a partir de 2028, que é quando de fato veremos o que será implementado pelo candidato vencedor, seja ele qual for”, disse Leal.
Lula lançou sua campanha oficial na cidade de São Bernardo do Campo, em São Paulo, palco do nascimento do movimento sindical brasileiro, que deu origem à criação do Partido dos Trabalhadores.
Em seu discurso durante o lançamento da campanha, Lula concentrou seu foco em falar sobre temas associados a direitos das mulheres, segurança pública e também soberania, em meio às tensões tarifárias envolvendo Estados Unidos e Brasil.
Lula ressaltou a soberania associada aos minerais críticos, que têm atraído crescente atenção de potências globais e sido um foco das disputas geopolíticas entre Estados Unidos e China, uma vez que tais minerais são cruciais para o desenvolvimento das áreas de tecnologia e defesa.
“A gente não quer exportar o mineral bruto para depois comprar as coisas feitas com ele. Queremos extrair aqui, transformar aqui, industrializar aqui, produzir aqui e gerar riqueza”, disse Lula em seu discurso. “Nós não temos opção pela China nem pelos Estados Unidos. Ninguém vai explorar os nossos minerais. Nós é que vamos explorá-los em benefício do povo brasileiro”, ressaltou.
Já o candidato Flávio Bolsonaro lançou sua campanha na praia de Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro.
O candidato Flávio Bolsonaro usou seu discurso para fazer críticas ao atual governo, ressaltando o elevado número de pessoas e empresas endividadas em meio à elevada taxa de juros do Brasil, que economistas atribuem em parte ao aumento de gastos do atual governo.
Ele também atacou a política de segurança pública, um tema sensível ao atual governo federal, uma vez que grande parte da população costuma ver partidos de esquerda como mais fracos em seus discursos relacionados à segurança pública.
Bolsonaro atribuiu também ao atual governo a falta de ideias novas para os próximos quatro anos.
“É sobre qual caminho queremos escolher para o nosso Brasil: o caminho da prosperidade, que vou oferecer ao povo brasileiro, ou o caminho das trevas, com o atual governo. Hoje, todos olham para o atual governo e se encheram do atraso, das ideias velhas, da desesperança e da enganação. Foi a última vez que o Lula enganou o povo, porque o Brasil vai vencer em 2026”, disse Bolsonaro em seu discurso.
Se de um lado Lula tentará se eleger presidente do país pela quarta vez — duas vezes nos mandatos entre 2003 e 2010 e depois entre 2023 e 2026 —, Bolsonaro tenta repetir a vitória de seu pai, que foi eleito para exercer o mandato entre 2019 e 2022. Lula derrotou Jair Bolsonaro nas eleições de 2022 e, atualmente, o ex-presidente cumpre prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado após a derrota eleitoral.
Impactos setoriais
O resultado das eleições pode trazer impactos, de diferentes proporções, em alguns setores.
Na área de infraestrutura, apesar de a vitória de um candidato de direita poder ser vista de forma mais favorável a investimentos privados, especialistas não esperam uma mudança tão drástica na já consolidada agenda de contratos de concessões e PPPs.
“Qualquer que seja o cenário do resultado eleitoral, há uma percepção de que os investimentos [em infraestrutura] devem se manter no mesmo nível que vem sendo feito atualmente, independentemente de qual governo. Existe a perspectiva de que um governo de oposição talvez materialize uma agenda econômica que possa alavancar um nível maior de investimentos, mas, de fato, não há grandes mudanças independentemente do candidato que ganhar”, disse Gustavo Gusmão, sócio da EY-Parthenon para o setor de governo e infraestrutura, à BNamericas.
Nos últimos anos, o Brasil tem acelerado uma agenda de concessões e PPPs, porém a agenda de privatização só avançou em estados governados por políticos de direita, enquanto o governo federal mostrou relutância em relação a esse modelo.
Em caso de vitória da oposição, o Brasil pode ver voltar a ganhar tração as discussões em torno de privatizações de empresas estatais, principalmente associadas à venda da empresa de petróleo e gás Petrobras, assim como de bancos estatais, como no caso do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal.
Outros candidatos
Além de Lula e Flávio Bolsonaro, a campanha presidencial brasileira conta com vários outros candidatos, mas até agora nenhuma candidatura se mostrou competitiva o suficiente para se aproximar dos dois principais.
Pesquisas recentes mostram que os candidatos de direita, como Renan Santos, Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Romeu Zema, aparecem com 12% das intenções de voto combinadas.
As eleições no Brasil, maior país da América Latina, têm atraído atenção global.
Segundo Leal, a vitória de outros candidatos de direita, concorrentes de Bolsonaro, aumentaria a chance de o Brasil implementar reformas econômicas mais relevantes para buscar conter gastos, como, por exemplo, mudanças nas regras da previdência.
“A composição do Congresso brasileiro no próximo ano tende a ser mais conservadora e mais próxima aos partidos de direita, mas há dúvida sobre saber se, caso Flávio Bolsonaro ganhasse a eleição, ele iria usar seu capital político para implementar reformas econômicas ou se usaria esse capital para resolver questões ligadas ao pai”, disse Leal, se referindo à prisão domiciliar de Jair Bolsonaro.
Relações com Estados Unidos e China
Nas eleições mais recentes da América Latina, políticos de direita alinhados à administração de Donald Trump têm ganhado tração, pois os dois maiores países da região, Brasil e México, se mantêm liderados por políticos de direita, ressaltando a importância do atual processo para os interesses norte-americanos na região.
Um ponto de grande diferença entre as candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro também se mostra na parte de relações internacionais.
Enquanto Lula critica fortemente as tarifas contra o Brasil e tentativa de interferência nas eleições brasileiras, Flávio Bolsonaro diz que está aberto a negociações mais amplas com os Estados Unidos.
Tal narrativa dos dois candidatos acontece na esteira das disputas geopolíticas globais entre Estados Unidos e China, com essa disputa sendo também travada na América Latina, entre as duas maiores economias do mundo.
Historicamente, os Estados Unidos foram o grande parceiro comercial e de investimento na região, porém, nas últimas décadas, a China tomou esse protagonismo e hoje é o grande parceiro de vários países da região, inclusive do Brasil.
Tal cenário agrega bastante complexidade, mesmo para o candidato de direita que promete aproximação com os Estados Unidos, uma vez que setores importantes da economia no Brasil hoje, como o setor mineral e de agricultura, estão muito ligados ao comércio bilateral com a China, fazendo com que uma opção por um ou outro país, por parte do Brasil, se torne algo bastante arriscado, mesmo em meio a um alinhamento político-ideológico.
“Se o Lula for eleito, após as eleições eu acredito que a relação do Brasil com os Estados Unidos tende a voltar a ser mais pragmática, já que não é do interesse do Brasil ficar discutindo com os Estados Unidos mais quatro anos. Já se o Flávio Bolsonaro vencer, teremos uma aproximação maior aos Estados Unidos, mas fica a dúvida sobre o que será a relação do Brasil com a China, já que hoje há uma grande relação entre Brasil e China, que o Brasil não pode simplesmente descartar”, disse Leal.
(A versão original deste conteúdo foi redigida em português)


