Uma eleição ameaçada por Washington – Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil

Uma eleição ameaçada por Washington – Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil

Ano VII, nº 133, 24 de Setembro de 2026

Por: Bruno Fabricio Alcebino da Silva, Giovanna Camily Rossato Gomes, Júlia Almeida Reis, Maria Eduarda Pepe, Pedro Guilherme Echila Rocha (imagem: Beto Barata/PL)

A disputa presidencial brasileira desenrola-se sob um cerco de pressões comandado pela Casa Branca em aliança com a extrema-direita continental. É algo inédito desde o golpe militar de 1964

Sinais, fortes sinais

A corrida presidencial brasileira de 2026 desenrola-se sob o impacto de uma inédita e multifacetada pressão externa. Longe de se limitar a manifestações pontuais de descontentamento, a percepção de interferência estrangeira no pleito manifesta-se em duas frentes extremamente articuladas a partir do que se convencionou chamar de Doutrina Donroe: por um lado, uma ofensiva político-ideológica regional liderada pelo presidente argentino Javier Milei e ancorada na ascensão da extrema-direita latino-americana; por outro, um garrote econômico e diplomático estatal exercido pela administração Donald Trump a partir de Washington.

O vetor regional dessa dinâmica ficou nitidamente exposto na visita de Javier Milei a São Paulo, em 25 de julho de 2026. Ao participar da convenção do Partido Liberal (PL) na Arena Pacaembu — evento que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro —, Milei converteu a política externa argentina em uma plataforma de militância eleitoral transnacional. Em seu discurso, proferiu ataques diretos às instituições brasileiras: classificou o presidente Lula como “presidiário” e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de “lixo careca”, em retaliação ao indeferimento de sua visita ao ex-presidente condenado por tentativa de golpe de Estado, Jair Bolsonaro.  

A agressão verbal desencadeou uma imediata crise diplomática. O Itamaraty convocou o embaixador argentino Daniel Raimondi para prestar esclarecimentos e chamou o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas. No âmbito interno, a reação do governo brasileiro revelou uma dupla estratégia: enquanto a diplomacia tradicional chamou o embaixador brasileiro em Buenos Aires para consultas e fez ver seu descontentamento ao representante argentino em Brasília, o presidente Lula adotou a cautela e o distanciamento irônico, resumindo o argentino a um lacônico “quem é esse cara?”. Ministros de pastas políticas, por outro lado, reagiram com dureza nas redes sociais, classificando Milei como “palhaço”, “caricatura patética” e subserviente a Donald Trump. Esse contraste expôs um cálculo político: conter a projeção internacional de Milei no plano institucional sem deixar de utilizar o confronto para mobilizar a militância digital governista.

Projeto continental

Mais do que um incidente isolado, a intervenção do titular da Casa Rosada insere-se em um projeto geopolítico continental de médio prazo. Sob a coordenação do assessor presidencial Santiago Caputo e em sintonia com redes globais ultraconservadoras, chanceladas por figuras como Steve Bannon nas conferências da CPAC (Conservative Political Action Conference), a Argentina busca liderar uma “liga de nações de direita” na América do Sul. Essa “onda azul” ganhou tração ao longo de 2026 com marcos decisivos: a posse de José Antonio Kast no Chile (março), a vitória de Keiko Fujimori no Peru (julho) e a eleição do empresário Abelardo de la Espriella na Colômbia (agosto), somando-se a governos como os de Daniel Noboa (Equador), Santiago Peña (Paraguai), Rodrigo Paz (Bolívia) e Nayib Bukele (El Salvador). Nesse tabuleiro, o Brasil, maior economia e âncora do Mercosul, representa a peça geopolítica mais cobiçada para definir a hegemonia regional desse bloco.

Para a candidatura de Flávio Bolsonaro, a presença de Milei no Pacaembu serviu como uma calculada cartada tática. Em um cenário de fragmentação interna do campo conservador, marcado pelo recuo do governador Tarcísio de Freitas, por disputas de capital político com Michelle Bolsonaro e pela concorrência de nomes como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos, a busca por avais internacionais visou consolidar Flávio como o polo de maior projeção externa da direita. Contudo, as pesquisas indicam um custo estratégico elevado: embora o discurso tenha inflamado a base radical, ele pouco amplia a atratividade junto ao eleitorado moderado, principalmente os indecisos, e acabou fornecendo munição aos adversários do próprio campo conservador, que criticaram a submissão a padrinhos estrangeiros como uma “baixaria e inadmissível”.

O episódio escancara, assim, uma contradição estrutural do extremismo reacionário latino-americano: enquanto emprega uma retórica eufórica de “defesa da soberania nacional”, aceita, estimula e comemora a ingerência de atores estrangeiros contra o próprio Estado brasileiro. A soberania torna-se um princípio seletivo, bradado contra governos progressistas, mas relativizado quando a pressão vem de Washington ou da subserviente Buenos Aires para favorecer seu próprio campo político. Se o ativismo de Milei forneceu o combustível ideológico e a narrativa de confronto regional, a interferência no processo político brasileiro assumiu contornos ainda mais severos quando o discurso ideológico se aliou ao peso econômico e coercitivo do Estado norte-americano.

A escalada tarifária começou em abril de 2025, quando o governo Trump aplicou ao Brasil uma sobretaxa recíproca de 10% e posterior aumento da alíquota para 50%. O impasse começou a se desfazer a partir de setembro, com um encontro informal entre Lula e Trump com retirada gradual das tarifas por Trump. Posteriormente, em fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou a base legal utilizada para a imposição dessas tarifas. O alívio, no entanto, foi temporário. Em julho de 2026, uma investigação da Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA a qual classificou práticas brasileiras como o Pix e a regulação de plataformas digitais como barreiras comerciais desleais, resultou em uma nova tarifa de 25% sobre cerca de três mil produtos brasileiros. Dias depois, entrou em vigor uma nova tarifa de 12,5%, aplicada a dezenas de países sob a alegação de fiscalização insuficiente do trabalho forçado nas cadeias de importação, somando um teto de 37,5%. Analistas de mercado descrevem o episódio como o maior choque tarifário da história recente do comércio bilateral, mas notam que o impacto no Ibovespa foi limitado. O governo brasileiro reagiu anunciando a ativação da Lei da Reciprocidade e o acionamento do mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio.

Foi nesse contexto que, em 21 de agosto de 2026, Lula e Trump realizaram um telefonema que girou em torno do tarifaço e do combate ao crime organizado, incluindo a contestação brasileira à classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. O desdobramento mais concreto veio no dia seguinte: o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, procurou Márcio Elias Rosa (Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) para agendar uma videoconferência na semana seguinte, retomando as negociações técnicas sobre o tarifaço.

Se o tarifaço deu o tom econômico da tensão entre Brasília e Washington, uma sequência de declarações de Donald Trump, Marco Rubio e integrantes de seu governo transformou as eleições de outubro em tema explícito da política externa americana, ainda que negue explicitamente sinais de interferência.

Intervenção às claras

Em 23 de junho último, o presidente americano compartilhou um artigo do site conservador Newsmax que classificou a eleição presidencial brasileira como o “próximo grande teste” de Trump na América Latina e afirmava que a disputa brasileira já gerava “intenso debate sobre a integridade do sistema eleitoral”, frase destacada por Trump ao republicar o conteúdo. O episódio ocorreu poucos dias depois de o próprio presidente americano classificar o Brasil como um país “politicamente perigoso”.

Em paralelo, o secretário de Estado Marco Rubio intensificou a pressão diplomática. Em 2 de junho de 2026, afirmou publicamente que o Brasil não integra o grupo de nações consideradas alinhadas aos interesses americanos. Rubio também tem sido apontado como o principal interlocutor da chamada “Doutrina Donroe”, uma versão atualizada da Doutrina Monroe que combina pressão política e ferramentas econômicas para alinhar governos latino-americanos aos interesses dos EUA. 

A escalada verbal levou o governo brasileiro a reagir publicamente. Lula desafiou Rubio a apoiar abertamente uma candidatura de Flávio Bolsonaro: “que venha, que monte um comitê”. Semanas depois, em agosto, uma fonte do Departamento de Estado foi mais explícita ao ser questionada pela CNN sobre as acusações de interferência: “Respeitamos o povo brasileiro e qualquer governo que ele escolha livremente, por meio de eleições livres e justas no Brasil”, declarou, acrescentando que Washington mantém relações “bem-sucedidas” com governos brasileiros tanto de direita quanto de esquerda.

Nesse cenário, Daniel Perez, o nome escolhido por Trump para a embaixada em Brasília, ainda pendente de aceitação do governo brasileiro, tem tentado se distanciar publicamente do debate eleitoral. Perez afirmou que “não haverá nenhum envolvimento” de sua parte na disputa de outubro: “Isso cabe aos brasileiros decidir (…). Quem quer que saia como vencedor, será o líder do Brasil e será com quem estarei trabalhando.” 

Em entrevista concedida dias antes do telefonema entre Lula e Trump, Amorim deu o relato mais direto, partindo do próprio governo brasileiro, sobre a percepção de interferência eleitoral. Questionado se o receio de interferência americana havia diminuído, respondeu: “Essas coisas se dão de uma maneira que às vezes a gente nem consegue definir. Mas houve claras intenções nesse sentido, de pessoas que estão lá.” Amorim descreveu um cenário de sinais contraditórios vindos de Washington: “você vê a declaração do Rubio dizendo que ele vai ter relação normal com quem quer que ganhe aqui as eleições […] Por outro lado, vê as pessoas defendendo primeiro que haja tarifa, depois viram que isso pegava tão mal e defenderam o adiamento da tarifa, porque estão querendo ganhar a eleição primeiro.” Amorim também confirmou que o presidente Lula decidiu não conceder o agrément ao embaixador indicado por Trump, Daniel Perez, antes das eleições — “O presidente Lula não vai conceder agrément nenhum nem para ninguém nem para nenhum país antes das eleições” —, e disse considerar “estranho” e passível de “suspeita” o fato de os EUA quererem viabilizar a posse de um embaixador às vésperas do pleito, após um ano e meio sem indicar nome algum. 

Histórico recente das interferências

As intervenções e interferências em processos eleitorais constituem um fenômeno recorrente na história política latino-americana. Na denominada Doutrina Donroe – uma releitura da Doutrina Monroe usada pelo governo de Donald Trump para reforçar o domínio dos Estados Unidos na América Latina – utiliza-se o apoio aberto a candidatos de direita na região e ameaças do uso de força para a imposição das vontades de Trump. O ápice encontrou-se na intervenção na Venezuela e na prisão arbitrária do presidente Nicolás Maduro.  

Em abril de 2025, Daniel Noboa, presidente do Equador aliado à extrema direita e à agenda de Washington, foi reeleito. Pouco antes da votação, em 29 de março, Trump recebeu Noboa na Flórida, com este último, pedindo auxílio militar aos EUA e tratando da possibilidade de instalação de bases militares estadunidenses em solo equatoriano. Com uma agenda de alinhamento em segurança e abertura comercial aos EUA, e um marco no enfraquecimento de mecanismos democráticos, Noboa também apareceu nos noticiários em 2026 com a acusação, por parte da Colômbia, de interferir nas eleições nacionais, ao apresentar o fim de tarifas impostas ao lado do candidato  de ultra-direita, Abelardo de la Espriella.

Em outubro, a eleição do presidente de direita Rodrigo Paz encerrou duas décadas de governo Movimiento al Socialismo na Bolívia. Trump explicitamente apoiou Paz, bem como posteriormente surgiram indícios de rede de influência ligada a Washington, cujo nome principal é o do operador político argentino Fernando Cerimedo. Preso na Bolívia em agosto de 2026, acusado de tentativa de feminicídio contra sua ex-companheira, a advogada e ativista Nadia Beller, o caso levou a mais investigações, constanto que Cerimedo atuava como articulador de campanhas de direita em vários países da América Latina com apoio logístico e financeiro de setores próximos ao governo. Ele  coordenava operações de desinformação em redes sociais com o uso de “fazendas de bots”, servidores e grandes quantias em dinheiro, e há alegações de que tinha ligações com ativos da CIA e recebia apoio do governo Trump.

Voltando a 2025, em dezembro, no Chile, o candidato de direita, José Antonio Kast, construiu sua campanha em torno da associação com os EUA e temas ligados ao trumpismo, especialmente segurança pública, imigração e combate ao crime. O governo Trump deu apoio político explícito a Kast e, após a vitória, o embaixador dos EUA no Chile, Brandon Judd, chegou a afirmar publicamente que o país já segue Doutrina Donroe sob Kast, declaração que gerou acusações de intromissão em assuntos internos e riscos à soberania chilena, enquanto parlamentares de oposição anunciaram ofícios ao presidente e ao chanceler por considerarem os dizeres “altamente injerencistas”. 

No mesmo mês, durante as eleições hondurenhas, Donald Trump apoiou publicamente o candidato conservador Nasry Asfura, afirmando que Honduras teria melhores relações com Washington com sua vitória e ameaçou consequências caso a candidata governista Rixi Moncada vencesse. Na véspera da votação, o presidente dos EUA também anunciou o perdão do ex-presidente e aliado de Asfura, Juan Orlando Hernández, que tinha sido condenado a 45 anos de prisão por supostamente criar uma rota de cocaína aos EUA. 

Na eleição presidencial do Peru de 2026, que elegeu Keiko Fujimori por margem muito estreita, houve denúncias concretas de interferência dos Estados Unidos: o partido Juntos pelo Peru pediu anulação de 647 seções eleitorais nos EUA, alegando atuação indevida de funcionários consulares que orientavam eleitores a votar em Fujimori, enquanto manifestantes em Lima protestaram contra a interferência americana nas eleições, condenando o apoio de Washington à candidata, que já prometeu seguir os ditames de Trump, priorizando compra de armamentos dos EUA e políticas de endurecimento contra imigração ilegal. 

Ao longo de junho, Donald Trump também interferiu nas eleições colombianas e apoiou abertamente Espriella via redes sociais, tendo contribuído com ataques a seu principal adversário, Iván Cepeda. Os posts foram republicados por membros da direita colombiana, republicanos e mesmo pela Embaixada dos EUA em Bogotá. O governo estadunidense também apoiou a campanha do Subsecretário de Estado, Christopher Landau, e de Espriella, que defendia a revogação dos vistos de qualquer pessoa acusada por ele de manipular as eleições colombianas. Essa manobra foi usada para deslegitimar os apoiadores de Cepeda sem qualquer prova. Nesse contexto, um dos episódios mais emblemáticos foi a detenção, nos Estados Unidos, do jornalista colombiano Beto Coral, crítico de Espriella, após sua participação em um protesto contra o candidato. 

As recentes incursões políticas dos Estados Unidos na América Latina têm suscitado alertas para os países que possuem lideranças políticas de orientação contrária à ideologia trumpista associada à extrema-direita. Nesse contexto, o Brasil é caracterizado como o principal país do continente em termos de liderança política e econômica — PIB nominal de US$2,64 trilhões na América Latina em 2026 — configurando-se em uma locomotiva regional que dirige os rumos da região. Desse modo, a eleição presidencial de 2026 será fundamental para os Estados Unidos, caso a extrema-direita chegue ao poder, mesmo, se for necessário a interferência norte-americana.

A pesquisa realizada pelo Instituto Quaest, entre os dias 10 e 13 de agosto, investigou a percepção da população brasileira acerca da possibilidade de interferência estrangeira nas eleições, bem como o campo político que, segundo os entrevistados, seria eventualmente beneficiado por ela. No que se refere à intervenção externa, 45% dos entrevistados afirmam acreditar nessa hipótese, enquanto 48% declararam não crer. Esse resultado revela um significativo temor pela percepção pública de que as eleições sejam prejudicadas por interferências externas, podendo comprometer a autonomia e soberania do Brasil na escolha democrática de seus representantes.

Outro levantamento da Quaest avaliou a percepção dos entrevistados sobre qual grupo político seria beneficiado por uma intervenção estrangeira: 57% acreditam que candidatos de extrema-direita seriam ajudados. Ao analisar o eleitorado bolsonarista diante dessa hipótese, a pesquisa identificou uma elevada expectativa de que a interferência ocorra (64%), sendo que 71% deste grupo acreditam que ela beneficiaria seu candidato. 

O conjunto de dados apurado pela pesquisa evidencia o nível de apreensão de uma parcela da população em relação à interferência estrangeira nas eleições do Brasil. Paralelamente, observa-se certa desconfiança do eleitorado bolsonarista quanto à veracidade do processo eleitoral, uma vez que esse grupo crê que a intervenção externa seria vantajosa para seu candidato. Assim, esse contexto explicita as pressões internas e externas sobre a soberania, a autonomia e a legitimidade democrática do Brasil, elementos fundamentais para a estabilidade política nacional, devido ao histórico recente da influência e interferência dos Estados Unidos na América Latina. 

Paralelamente à pesquisa, as reações do mundo político brasileiro interpõem o nível de apreensão em relação às tentativas de intervenção. Em período eleitoral, com a intensa disputa de discursos, o posicionamento dos candidatos tem sido uma das pautas discutidas. Diante das falas de Javier Milei, no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência, os diversos candidatos apresentaram seus posicionamentos às críticas diretas a figuras do poder e Estado brasileiro.

Além do presidente Lula com o caricato “Quem é esse cara?”, os outros candidatos, mesmo que politicamente mais alinhados a Milei, também teceram críticas ao argentino. Ronaldo Caiado foi pontual ao ser questionado sobre o tema, classificando como inadmissível a tentativa de intervenção no processo eleitoral, para mais, também criticou a gerência da política externa pelo Itamaraty e pelo próprio presidente Lula, principalmente em relação aos enfrentamentos ao governo Trump. Romeu Zema, por outro lado, acatou as críticas de Milei, mas indicou que não apoia o caráter agressivo com que as críticas foram feitas, indicando que, ainda que válidas, essas deveriam ser feitas por vias diplomáticas. Renan Santos não se pronunciou diretamente sobre as declarações do presidente argentino, mas tem diversas declarações se posicionando contra intervenções externas, na maioria das vezes em contextos envolvendo o governo estadunidense.

Ainda que Caiado e Zema tenham se posicionado de maneira crítica a Milei, frequentemente enfatizam que caso eleitos irão buscar o intenso alinhamento com o governo Trump e a ideologia ocidental liberal, muitas vezes até se opondo à China — hoje, maior parceiro comercial do Brasil. Flávio Bolsonaro, por sua vez, tem o posicionamento mais claro de alinhamento, com seu irmão, Eduardo Bolsonaro — ex-deputado, atualmente com o mandato cassado por agir contra os interesses da nação — representando o candidato do Partido Liberal no território estadunidense.

Nos últimos 12 meses, o Itamaraty tem atuado na defesa da soberania e dos interesses nacionais diante de medidas e iniciativas dos Estados Unidos consideradas lesivas aos interesses brasileiros. A atuação tem combinado contestação às medidas unilaterais, defesa da autonomia institucional brasileira e busca pela preservação do diálogo bilateral e multilateral.

No âmbito comercial, a resposta brasileira às sanções tarifárias adotadas pelos EUA envolveu tanto a negociação bilateral quanto o recurso aos mecanismos multilaterais. Paralelamente, o governo brasileiro manteve o canal de negociação com Washington, demonstrando que a estratégia brasileira busca defender seus interesses sem romper os canais diplomáticos e econômicos existentes.

Além do questionamento dos nomes que estão em alta devido à eleição, a grande mídia tem deixado de lado as declarações de Trump sobre as suas “vontades” para a eleição brasileira. O The Intercept Brasil, no dia 29 de agosto, publicou um artigo criticando a atuação da imprensa em relação às ações do presidente dos Estados Unidos e seus apoiadores, ao tratarem como problemas diplomáticos claras tentativas de intervenção, como o envio de dois oficiais para averiguar as urnas eletrônicas.

Considerações finais

A eleição presidencial brasileira de 2026 desenrola-se, portanto, sob um cerco simultâneo de pressões externas que se reforçam mutuamente: de um lado, a ofensiva político-ideológica personificada por Javier Milei e pela ascensão de uma direita continental alinhada à chamada Doutrina Donroe; de outro, o instrumental econômico e diplomático empregado pela administração Trump, que combina tarifas, ameaças e gestos de aproximação seletiva conforme os interesses eleitorais de Washington. Os episódios analisados — do discurso de Milei no Pacaembu ao reconhecimento do próprio chanceler Celso Amorim sobre sinais “claros” de interferência — evidenciam que a disputa eleitoral brasileira não pode ser lida apenas por suas dinâmicas internas, mas como parte de um tabuleiro geopolítico regional em que o Brasil ocupa a posição de peça mais valiosa.

O histórico recente na América Latina — Equador, Bolívia, Chile, Honduras, Peru e Colômbia — mostra que essa não é uma ameaça hipotética, mas um padrão replicado com variações táticas: apoio público a candidatos alinhados, pressão tarifária, operações de desinformação coordenadas e, em casos extremos, ingerência direta sobre processos de posse e reconhecimento de resultados. A contradição central que perpassa esse padrão é a seletividade do discurso soberanista: a mesma direita que se apresenta como guardiã da soberania nacional aceita, estimula e comemora a intervenção estrangeira quando esta favorece seu próprio campo político.

No plano interno, a reação do establishment político brasileiro — do embate retórico entre Lula e Milei às críticas de adversários do próprio campo conservador à “baixaria” de recorrer a padrinhos estrangeiros — revela que o tema da interferência já não é marginal, mas central ao debate eleitoral. Essa centralidade se confirma nos dados da pesquisa Quaest: quase metade da população desconfia da lisura do processo diante de pressões externas, e a maioria do eleitorado bolsonarista não apenas acredita nessa possibilidade como a considera favorável ao seu candidato — um dado que expõe uma tensão de fundo entre a retórica nacionalista de parte da direita brasileira e sua disposição a se beneficiar de uma ingerência que, em tese, deveria rejeitar.

Assim, as eleições de outubro de 2026 se consolidam como um teste da resiliência institucional brasileira frente a um modelo de intervenção multifacetado, que combina pressão econômica, guerra de narrativas e alinhamento ideológico transnacional. Mais do que decidir a sucessão presidencial, o pleito colocará à prova a capacidade do país de preservar sua autonomia decisória diante de um cenário regional em que a soberania eleitoral tem se mostrado cada vez mais permeável às disputas de poder travadas fora de suas fronteiras.

Referências

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