Nas últimas décadas, a política externa dos Estados Unidos deixou marcas profundas em diferentes regiões do mundo. No Oriente Médio e na América Latina, intervenções militares e operações indiretas foram frequentemente justificadas por discursos de segurança, liberdade ou estabilidade.
As imagens dessas invasões tornaram-se documentos históricos, capazes de condensar conflitos complexos em cenas de choque e tensão. Tanques nas ruas, céus cortados por aviões e cidades ocupadas revelam muito além do discurso pelos presidentes dos EUA ao se dirigirem à nação.
Expõem disputas geopolíticas, interesses econômicos e estratégias de poder global. Mais do que registros visuais, essas imagens constroem narrativas e moldam percepções internacionais. Em muitos casos, também silenciam vozes locais e experiências civis. Ao revisitá-las, somos convidados a questionar versões oficiais.
Isso porque o intervencionismo, visto pela lente da fotografia, ganha contornos humanos e políticos e nos obriga a refletir sobre quem conta a história — e a partir de qual ponto de vista.
Irã (1979)
Em 1953, o Irã viveu uma ruptura decisiva em sua história política com a queda do primeiro-ministro Mohammed Mossadegh, eleito de forma democrática. No poder havia apenas dois anos, ele defendia a nacionalização do petróleo, recurso vital para a reconstrução econômica do pós-guerra britânico e americano.
Essa decisão, somada ao ‘temor’ de uma aproximação com o comunismo, acionou alertas nos Estados Unidos e Reino Unido. O que foi divulgado como uma mobilização popular em defesa do xá Mohammad Reza Pahlavi ocultava uma operação coordenada. Serviços de inteligência dos Estados Unidos e do Reino Unido financiaram e apoiaram militares iranianos para derrubar o governo.
Tanque do Exército Iraniano com o retrato do Xá do Irã no topo – Getty Images
Décadas depois, o episódio deixou de ser apenas suspeita histórica. Em 2000, a então secretária de Estado Madeleine Albright reconheceu publicamente o envolvimento americano.
Em 2013, documentos da CIA confirmaram formalmente a ação como parte da política externa dos EUA. Para muitos iranianos, a deposição de um líder legítimo e a imposição de um regime autoritário nunca foram esquecidas.
Operação Ciclone (1983)
Em 1979, tropas da União Soviética invadiram o Afeganistão para sustentar um governo comunista fragilizado. A intervenção ocorreu após um golpe de Estado e encontrou resistência imediata de grupos islâmicos armados, conhecidos como Mujahideen.
Esses combatentes rejeitavam tanto o regime local quanto a presença soviética. Rapidamente, passaram a receber apoio externo de países como Estados Unidos, Paquistão, China e Arábia Saudita.
O Tio Sam enxergou o conflito como uma chance de enfraquecer a URSS. A estratégia buscava transformar o Afeganistão em um desgaste comparável ao que o Vietnã foi para os EUA. Armas, dinheiro e treinamento foram enviados para prolongar a guerra.
Ronald Reagan, então presidente americano, até mesmo chegou a receber líderes jihadistas na Casa Branca na ação que ficou conhecida como Operação Ciclone. Após quase dez anos, Mikhail Gorbachev ordenou a retirada das tropas soviéticas, concluída em 1988.
Osama bin Laden – Getty Images
Sem o apoio vermelho, o governo afegão caiu e o país se deparou com uma guerra civil. Nesse cenário, surgiu o Talibã, formado em grande parte por ex-Mujahideen. Em 1996, o grupo tomou Cabul e impôs um regime islâmico fundamentalista. O Talibã também deu abrigo à Al-Qaeda e ao terrorista Osama bin Laden.
Invasão do Afeganistão (2001)
Em outubro de 2001, os Estados Unidos lideraram uma invasão ao Afeganistão visando derrubar o Talibã. A ação foi apresentada como resposta direta aos ataques de 11 de setembro e à atuação da Al-Qaeda no país.
Era uma promessa de eliminar a ameaça terrorista e apoiar a construção de um governo democrático. A tomada de Cabul ocorreu rapidamente, forçando o Talibã a deixar o poder.
Em 2004, um novo governo afegão assumiu, respaldado pela comunidade internacional. Mesmo assim, a insurgência talibã não foi neutralizada. Ataques armados e atentados continuaram a marcar o cotidiano do país.
Em 2009, por exemplo, o presidente Barack Obama anunciou o envio de mais tropas para conter o avanço do grupo. A medida teve impacto limitado e não garantiu estabilidade duradoura.
Já em 2014, a OTAN encerrou sua missão de combate e transferiu a segurança ao Exército local, numa mudança que abriu caminho para a expansão territorial do Talibã.
Em 2021, o presidente Joe Biden determinou a retirada definitiva das tropas americanas. A decisão levou à queda rápida de Cabul e ao retorno do Talibã ao poder.
Invasão do Iraque (2003)
Em agosto de 1990, o Iraque, governado por Saddam Hussein, invadiu o Kuwait, provocando mortes, destruição e o exílio do governo local. A decisão é apontada por analistas como um erro estratégico que alterou o equilíbrio do Oriente Médio.
O episódio inaugurou um longo período de tensões e intervenções na região. Em janeiro de 1991, uma ampla coalizão militar liderada pelos Estados Unidos iniciou a ofensiva para expulsar as tropas iraquianas, apoiada pela Arábia Saudita e Reino Unido.
Após o conflito, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 687, exigindo o fim das armas de destruição em massa do Iraque. Nos anos seguintes, Bagdá interrompeu a cooperação com inspetores internacionais de armas do tipo. Ao mesmo tempo, Bush acusava o país de guardar e produzir armas de destruição em massa, acusação alvo de controvérsia pela falta de provas. Após os atentados de 11 de setembro, o presidente passou a defender uma nova intervenção militar.
Saddam Hussein, ditador iraquiano – Getty Images
Em 2003, Colin Powell, Secretário de Estado dos EUA, apresentou acusações sobre arsenais proibidos que depois ele mesmo afirmaria que seriam frágeis… A invasão teve apoio de Reino Unido, Austrália e Polônia. Países como França, Alemanha e Canadá se opuseram à ação.
Segundo especialistas, os EUA buscaram impor uma mudança de regime e redesenhar a segurança regional. O resultado foi um colapso prolongado, com centenas de milhares de civis mortos e o fortalecimento de grupos extremistas.
Golpe militar no Chile (1973)
Desde o início do governo de Salvador Allende, os Estados Unidos adotaram uma postura de oposição aberta ao Chile. O contexto era de forte tensão da Guerra Fria. As nacionalizações promovidas por Allende atingiram setores estratégicos e interesses econômicos estrangeiros.
Outra preocupação fora sua aproximação com a URSS. Essas medidas reforçaram a percepção de ‘ameaça’ por parte do governo americano. Embora não tenham executado diretamente um golpe, os EUA atuaram para enfraquecer o governo chileno.
Pressões diplomáticas e restrições financeiras passaram a isolar o país. Grupos opositores receberam apoio político e recursos no exterior. Ao longo do início dos anos 1970, o cenário chileno tornou-se cada vez mais instável.
Augusto Pinochet, ex-ditador chileno – Biblioteca del Congreso Nacional via Wikimedia Commons
Em setembro de 1973, as Forças Armadas intervieram de forma decisiva. Sob o comando de Augusto Pinochet, Allende foi derrubado em um golpe militar. O presidente morreu durante a tomada do poder. Pinochet assumiu o governo e instaurou uma ditadura marcada por repressão, tortura e desaparecimentos.
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Thiago Lincolins é jornalista, formado pela Universidade Anhembi Morumbi e pós-graduado em marketing digital através da Universidade Belas Artes. Ama escrever sobre personagens históricos, efemérides, arqueologia e entretenimento.



