A Odata vê a América Latina como um mercado pujante em data centers com o avanço da demanda por inteligência artificial e machine learning, mas não é uniforme. Vitor Caram, diretor de expansão LatAm da companhia, vê que cada país possui desafios diferentes uns dos outros.
Com presenças no Brasil, Chile, Colômbia e México, o executivo afirmou que o avanço da IA “gravita” em torno dos Estados Unidos, uma vez que lá está acelerado o consumo da computação em nuvem tradicional para um modelo mais baseado em nuvem.
Com isso, o México sai em vantagem por proximidade e conectividade para atender o mercado norte-americano por meio de oferta de nearshoring. Mas tem desafios, como a regulação e matriz energética mexicana que:
- Opera no limite de sua capacidade;
- Tem o mercado energético fechado, com o monopólio estatal controlado pela CFE;
- Teve poucos investimentos na última década.
Apesar disso, a Odata está prestes a instalar o seu primeiro cluster de machine learning da América Latina no México para o segundo semestre de 2026. Apesar das dificuldades energéticas, a companhia seguirá investindo neste mercado pela proximidade com os EUA. Mas reconhece que a falta de investimentos do governo mexicano em energia pode tornar o nearshoring uma oportunidade perdida, se a capacidade não atender a demanda do norte.
Em um segundo momento, o Chile e o Brasil atraem esses investimentos na visão da Odata.
Brasil
O Brasil é o mais forte e mais bem posicionado na América Latina para atrair data centers. Mas o recente cenário legislativo e regulatório está represando investimentos locais voltados à inteligência artificial. Na visão de Caram, o mercado brasileiro se diferencia do mexicano por ter uma estrutura energética limpa, mercado livre, maduro, com preços competitivos e um sistema de transmissão robusto e interconectado.
Mas o cenário de indefinição está mantendo os grandes projetos baseados em GPUs em “compasso de espera”, em especial com:
- A falta de definição do marco regulatório da IA no Congresso Nacional (PL 2338/2023);
- O congelamento do trâmite do Redata no Senado Federal;
- E o tarifaço imposto pelo MDIC aos produtos de data centers e telecomunicações.
O diretor de expansão da Odata explicou que o receio está ligado à insegurança tributária, com a carga de impostos para trazer esses insumos ao Brasil. Mas também há preocupações com a insegurança jurídica que o Brasil traz aos investidores.
Chile
O Chile é visto pela Odata como o mercado mais maduro, sem dificuldades tributárias e nem elétricas para data centers na América Latina. Mas o grande desafio está em aprovações e nos valores dos terrenos para os projetos. Com isso, o prazo de entrega dos centros de dados é mais longo que o restante da região.
Caram cita especificamente como obstáculos:
- Processos mais longos para licenciamento e de interconexão elétrica;
- Desafios de zoneamento na região da capital Santiago, pois é difícil encontrar terrenos capazes de combinar aprovação de zoneamento com infraestrutura elétrica pelas questões de planejamento urbano e proximidade com comunidades locais.
Mesmo com essas dificuldades, o Chile se torna “no brainer” para a Odata por ter um ecossistema elétrico e tributário favoráveis aos data centers e pelo fato de o Brasil ainda não ter aprovado o Redata.
Colômbia
A Colômbia é o país mais recente a entrar no portfólio da empresa que trabalha com colocação de data centers para clientes como neoclouds e hyperscalers. O país tem como principal vantagem uma zona franca dedicada a centro de dados na região metropolitana de Bogotá. Colabora também a proximidade com os EUA e uma vantagem tarifária interessante para esse ecossistema.
Porém, o país também tem problemas com a infraestrutura energética, que é menos robusta e mais cara que a dos demais países da região. Isso, combinado à instabilidade política na região, gera dificuldades para que o território colombiano desenvolva um ecossistema para data centers.
2026 e adiante
Com este cenário, Caram reforçou que a Odata tem uma visão positiva para 2026, uma vez que o cluster de machine learning no México começará a funcionar no segundo semestre de 2026. O Chile deve crescer impulsionado pela chegada do governo Kast.
Apesar do compasso de espera, a companhia segue otimista com o Brasil, pois a economia brasileira é um vetor natural de crescimento que gera oportunidades e o cenário que hoje está parado pode acelerar com eventuais mudanças.
No geral, o executivo explicou que a América Latina é um mercado de “poucos contratos” diferentemente do mercado norte-americano que é mais presente e demanda mais esses serviços de GPU. Com isso, a contratação de novos clusters de IA ainda não é intensiva na região.
Também acredita que o cenário global de instabilidade geopolítica pode trazer investimentos para a região que iriam para outras localidades. Mas para isso, deve se afastar dos conflitos globais e não criar um cenário de risco, uma vez que esses investimentos de data centers são para durar 15 a 30 anos.
Longo prazo
No longo prazo, a Odata não espera criar campus de dados da ordem dos GW, mas em MW, em especial para inferência de dados que esperam triplicar e por conta da proximidade com grandes centros. Explicou ainda que o fato de ter acionistas permite mitigar riscos e trabalhar em uma estratégia de landbank, ou seja, se um local ficar parado podem ir apostar para outra região ou eventualmente abrir um novo mercado.
Vale lembrar, a AIP, MGX e Global Infrastructure compraram por US$ 40 bilhões a controladora da Odata, Aligned Data Centers em outubro de 2025.
Especificamente no Brasil, a Odata manterá a sua estratégia focada no data gravity do eixo Rio-SP, em que um ecossistema bem desenvolvido traz mais consumo de dados. Mas reforça que o país precisa pensar uma estratégia de soberania nacional para não perder essas oportunidades nos próximos cinco a dez anos.
Imagem principal: Frente do data center da Odata na Cidade do México (divulgação)
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