Bruna Santos é professora adjunta de Administração Pública na Columbia University.Inter-American Dialogue / Divulgação
A gaúcha Bruna Santos leva conhecimento sobre o Brasil até Washington. A diretora do Programa Brasil, único think tank nacional (espécie de centro de estudos) nos EUA, diz que a ideologia divide os governos dos dois países, mas há oportunidade de cooperação pragmática visando benefício econômico, sobretudo em terras raras e minerais críticos. Na terça-feira (20), o presidente Donald Trump completa um ano de mandato. Pois é, parece mais. Se havia dúvida, a executiva vê na intervenção americana na Venezuela o marco efetivo do início de uma nova lógica mundial, com compressão do espaço de manobra do não alinhamento aos EUA de países da América Latina, como o Brasil.
O que são o Diálogo Interamericano e o Programa Brasil?
Os EUA têm muitos centros de estudo que produzem conhecimento, pesquisa e até uma espécie de assessoria aos tomadores de decisão da esfera pública em relação à política externa e outros temas. Mas não existe nenhum think tank sobre Brasil nos EUA além do nosso. Quando assumi, faziámos parte do Wilson Center e nos chamávamos Brazil Institute.
Nos primeiros meses da administração Trump, por ideologia e questões ditas orçamentárias, o governo dos EUA acabou com o Wilson Center. No meio dessa crise, fomos para outro think tank, o Diálogo Interamericano, focado no hemisfério ocidental, e mudamos de nome para Programa Brasil. Ficou provado, com a crise das tarifas, é como é importante ter presença contínua nos EUA para entendimento sobre Brasil. Não não representamos o governo brasileiro. Somos uma espécie de embaixada privada intelectual que explica o Brasil, suas oportunidades e desafios. É surpreendente que um país do tamanho do Brasil, com a relevância regional que tem, seja quase pequeno nos diálogos internacionais em Washington.
Como o ano de 2025 ficou para a história da relação Brasil-EUA?
Brasil e EUA viveram uma das mais graves crises nos seus 200 anos de relação bilateral. Foi causada por intenções políticas, mas usou barganha econômica. Resultou em prejuízo tanto para o Brasil quanto para os EUA. O Brasil optou por coordenar com o setor privado, fazer lobby e aguardar até que a realidade se impusesse e ficasse claro que o pedido que havia sido feito pelo presidente Trump ao presidente Lula era inexequível, por envolver o sistema judicial brasileiro. A única saída para o governo brasileiro foi trabalhar na esfera técnica. Esse impasse demonstrou falta de entendimento mais profundo sobre Brasil nas esferas de tomada de decisão nos EUA. E ocorre em um mundo que vive a erosão do multilateralismo, muito mais transacional e multipolar.
A ideologia divide Brasil e EUA, mas a necessidade material faz convergir
Ficou alguma marca do tarifaço na relação Brasil-EUA?
O Brasil superou em grande parte essa crise, mas todas as empresas precisam começar a lidar com tarifas como risco estratégico. Isso não vai mudar, impossível construir essas garantias. Até porque países que fizeram concessões imediatamente ao Trump, ao contrário do Brasil, não conseguiram condições muito melhores em relação a tarifas. Estamos em momento de profundo desalinhamento ideológico e político entre os presidentes de Brasil e EUA, mas, se conseguirmos manter essa postura realista, dialogando com a característica clara da política estrangeira americana, que é transacional, podemos convergir em interesses econômicos. A ideologia divide os dois países, mas a necessidade material faz convergir.
Quais os pontos com chance de benefício mútuo?
A maior oportunidade é o entorno da transição energética e da segurança de cadeias de suprimentos de minerais críticos para os EUA. O Brasil combina grandes reservas de minerais críticos e matriz energética majoritariamente renovável, enquanto os EUA buscam reduzir a dependência da China trazendo as cadeias de suprimento para região mais próxima aos EUA.
O ponto central é evitar os terrenos onde há vulnerabilidade e transformar as oportunidades em poder negociador
Como pode ocorrer essa parceria?
O Brasil sempre buscou autonomia por meio da diversificação de parceiros, mas Trump aumentou o custo de não alinhamento, de ficar sentado no muro, para países latino-americanos. A maior compressão disso deixou alguns espaços onde o Brasil tem muita margem de manobra, como segurança alimentar, energia, terras raras e minerais críticos, e pouca, em temas de segurança e estabilidade regional. O ponto central é evitar os terrenos onde há vulnerabilidade e transformar as oportunidades em poder negociador. O acesso dos EUA a minerais críticos deve vir junto a co-investimento, processamento e refino em território nacional, de forma a ofertar para os EUA segurança, previsibilidade e sustentabilidade. Não significa não seguir as parcerias com China e União Europeia, mas converter os minerais em ativo estratégico, com licenciamento previsível, mapeamento geológico e clareza regulatória
Isso seria uma opção para o Brasil avançar na negociação sobre suspensão do tarifaço?
O capítulo terras raras e minerais críticos e o papel disso no longo prazo ficam mais no campo estratégico. Os setores ainda afetados por tarifas precisam se coordenar e mostrar para os parceiros americanos quanto a taxação está afetando os próprios americanos.
O caminho é discrição ideológica e política, que não pareça, em hipótese alguma, que o governo brasileiro está defendendo o governo da Venezuela
Como o Brasil pode contestar a intervenção na Venezuela sem correr o risco de perder pontos na relação com os EUA?
O caminho é discrição ideológica e política, que não pareça, em hipótese alguma, que o governo brasileiro está defendendo o governo da Venezuela, mas sim o cumprimento de regras e os valores de não intervenção. Isso está sendo feito na ONU e nos posicionamentos legalistas do Brasil. Outra questão é não fazer com que isso atrapalhe o contínuo diálogo operacional de outros ministérios com Washington. Não pode queimar essas pontes e precisa ter uma estratégia em dois níveis diferentes.
Como a tentativa de Trump de aumentar sua zona de influência na América pode impactar o Brasil?
Estamos vendo emergir um mundo em que os EUA colocam o hemisfério ocidental como sua esfera de influência. O que vimos nas últimas semanas foi realmente um ponto de transição do fim da ordem que se criou no pós-Guerra Fria para o início de um novo momento em que a cooperação multilateral vai ser substituída por uma lógica de maior competição multipolar. A rivalidade entre EUA e China vai seguir estruturando a geopolítica, mas as potências emergentes médias como Brasil, Índia, México e Turquia vão se tornar atores importantes. Se isso vai resultar nos EUA colocando o dedo nas eleições da região neste ano, ainda vamos ter de ver.
Já me perguntaram quem é Alexandre de Moraes, por exemplo.
Quais são os objetivos do Programa Brasil no Diálogo Interamericano para 2026?
Neste ano, teremos olhar voltado às eleições. Por exemplo, temos um projeto para monitorar e explicar os principais movimentos, especialmente para o público corporativo americano, e vice-versa, porque os EUA também têm eleições importantes neste ano. Outro projeto envolve encontros fechados entre diplomatas, executivos, parlamentares e o setor privado em Washington. Também temos uma pesquisa sobre o custo econômico do crime e da violência no Brasil. Ainda servimos como uma plataforma de Brasil para o Congresso americano, desde perguntas muito básicas até mais complexas. Já me perguntaram quem é Alexandre de Moraes, por exemplo.
Como os brasileiros nos EUA vivem o maior controle sobre migrantes?
Deve permanecer assim, é uma prioridade da atual gestão. Isso aumenta muito o custo de estar nos EUA. Existe risco de um grande número de pessoas decidir deixar o país. Comigo aconteceu um episódio que me chocou. Quando renovei o visto, pediram para abrir minhas redes sociais, e, obviamente não mudei nada. Deu tudo certo, mas foi chocante.



