
Por HILDER ALBERCA VELASCO*
O sequestro do tempo e o esgotamento dos corpos operam como os mais eficientes mecanismos de dominação, neutralizando a revolta e normalizando a degradação social
Por que a política cheira mal? Porque aprendemos a respirar a decomposição como se fosse normalidade.
Existe um momento em que a linguagem política perde completamente a capacidade de nomear a realidade. Sua estrutura adoece e as palavras continuam circulando democracia, cidadania, desenvolvimento, inclusão, progresso, mas já não tocam a vida concreta das pessoas, sobretudo das mais pobres. Tornam-se resíduos verbais repetidos mecanicamente por jornalistas, ministros, acadêmicos e candidatos em campanhas eleitorais intermináveis. O discurso político latino-americano parece viver precisamente nesse estágio de decomposição.
No Peru, essa decomposição não é apenas institucional. Ela também é sensorial. Está nas ruas congestionadas, no transporte público superlotado, nas mães vendendo comida até a madrugada, nos trabalhadores que passam horas diárias em deslocamentos exaustivos e nos estudantes fazendo tarefas escolares ao lado de barracas ambulantes. A política já não organiza a esperança coletiva. Ela administra a sobrevivência.
Talvez seja necessário utilizar uma linguagem menos higienizada para pensar nossa época. Uma linguagem capaz de mostrar que milhões de pessoas são obrigadas diariamente a consumir resíduos simbólicos produzidos por um sistema que se alimenta de precariedade. Consumimos lixo alimentar, lixo educativo, lixo cultural, lixo político e, talvez o mais penetrante deles hoje, lixo digital. Não se trata apenas de excesso de informação, mas de uma saturação contínua da percepção coletiva.
Ao final, todos consumimos a merda ideológica do sistema, independentemente de pertencermos à esquerda ou à direita.
O ser humano come a fruta, digere e depois elimina aquilo que já não serve. A ideologia contemporânea parece operar de maneira inversa. O sistema produz resíduos simbólicos diariamente e nós os ingerimos como se fossem alimento necessário para sobreviver socialmente. Consumimos discursos, promessas, medos, imagens e falsas esperanças até que a própria podridão passe a parecer natural. Talvez o aspecto mais inquietante da política contemporânea seja justamente este: aprendemos a consumir aquilo que lentamente nos deteriora.
Aquilo que chamamos ideologia já não opera apenas como conjunto abstrato de ideias. Ela infiltra-se nos corpos, nos hábitos, na linguagem cotidiana, nas expectativas frustradas e até na maneira como interpretamos nosso próprio sofrimento. A ideologia contemporânea não ordena apenas aquilo que devemos pensar. Ela condiciona silenciosamente aquilo que passamos a considerar normal, inevitável ou possível.
A pobreza como administração política da sobrevivência
Uma das maiores vitórias do neoliberalismo latino-americano foi transformar sofrimento estrutural em responsabilidade individual. O desemprego converteu-se em falta de esforço. A pobreza passou a ser interpretada como ausência de mentalidade empreendedora. O colapso dos serviços públicos tornou-se simples “ineficiência inevitável”. O indivíduo fracassa sozinho enquanto o sistema permanece aparentemente inocente.
No entanto, limitar essa crítica apenas às elites econômicas seria insuficiente. Parte significativa das burocracias progressistas latino-americanas também aprendeu a administrar politicamente a pobreza sem transformá-la estruturalmente. Durante décadas, muitos setores da esquerda institucional converteram miséria social em capital simbólico, eleitoral e acadêmico. Falam constantemente em povo, exclusão e resistência, mas frequentemente mantêm uma relação paternalista com aqueles que afirmam representar.
A pobreza transforma-se em linguagem política rentável. Existe uma esquerda que já não imagina emancipação. Administra dependências. Alimenta-se moralmente da desigualdade enquanto denuncia permanentemente o capitalismo como entidade abstrata, quase metafísica, sem reconhecer seus próprios fracassos históricos, suas burocracias envelhecidas e sua incapacidade de produzir horizontes sociais realmente transformadores.
Em muitos casos, a direita contemporânea cresce precisamente sobre os escombros deixados por essa esquerda esgotada. Não porque ofereça soluções mais humanas, mas porque consegue explorar o desencanto produzido por décadas de promessas progressistas incapazes de alterar profundamente a vida material das maiorias.
No Peru contemporâneo, essa violência assume formas profundamente cotidianas. O trabalhador informal acredita que fracassou individualmente. A mãe exausta sente culpa por não conseguir acompanhar plenamente a educação dos filhos. O estudante pobre internaliza uma sensação permanente de inadequação enquanto observa uma sociedade que promete mobilidade social, mas organiza estruturalmente a exclusão.
A sociedade peruana tornou-se especialista em moralizar desigualdades históricas. A meritocracia opera como religião civil da precariedade. Promete ascensão individual numa sociedade que necessita permanentemente da exclusão massiva para continuar funcionando.
O corpo cansado e a política do esgotamento
Grande parte da teoria política moderna ainda imagina os sujeitos como entidades racionais relativamente autônomas, capazes de participar conscientemente da vida pública e de decidir politicamente a partir de reflexão crítica. Contudo, talvez seja impossível compreender a política latino-americana contemporânea sem analisar o esgotamento corporal produzido pelo capitalismo periférico.
A política do cansaço tornou-se uma das formas mais eficientes de dominação silenciosa. O cidadão exausto já não possui energia psíquica suficiente para participação pública efetiva. Trabalha excessivamente, desloca-se durante horas em cidades saturadas, enfrenta insegurança econômica permanente e retorna para casa em estado de sobrevivência fisiológica. Nesse contexto, exigir participação democrática ativa transforma-se frequentemente em ironia institucional.
No Peru, milhões de pessoas vivem aprisionadas numa rotina onde quase todo o tempo disponível é consumido pela necessidade de continuar sobrevivendo. A pobreza não significa apenas insuficiência monetária. Significa também ausência de descanso, ausência de estabilidade emocional e, sobretudo, ausência de tempo. O capitalismo periférico sequestra o tempo de vida e reorganiza silenciosamente a experiência cotidiana ao redor do desgaste contínuo.
O trabalhador informal acorda antes do amanhecer e retorna para casa tarde da noite sem qualquer possibilidade real de participação política consistente. A mãe exausta administra simultaneamente trabalho precário, alimentação, transporte e cuidado familiar enquanto o Estado aparece apenas como burocracia distante ou promessa eleitoral reciclada.
Essa dimensão temporal da dominação raramente aparece nos discursos oficiais sobre cidadania. A política institucional continua imaginando sujeitos disponíveis para participação pública constante, enquanto milhões vivem em estado permanente de ansiedade econômica e fadiga física. O corpo cansado torna-se incapaz de imaginar transformações históricas profundas. Sobrevive dia após dia. Talvez a resignação contemporânea nasça menos da ignorância do que do esgotamento acumulado de corpos que já não conseguem sequer imaginar outro futuro possível.
Lima, o Peru e o colapso da imaginação política
As grandes cidades latino-americanas não produzem apenas desigualdade material. Produzem também formas específicas de subjetividade. Não se trata simplesmente de espaços urbanos desorganizados, mas de territórios onde o esgotamento cotidiano reorganiza silenciosamente a maneira como percebemos a nós mesmos, os outros e o próprio horizonte político.
Lima talvez seja um dos exemplos mais extremos dessa lógica. O trânsito interminável, o ruído constante, a poluição visual, a insegurança cotidiana e a brutal desigualdade social criam uma experiência urbana marcada pelo desgaste contínuo. O cidadão aprende lentamente a anestesiar-se para conseguir sobreviver.
Ninguém se surpreende mais ao ver crianças fazendo tarefas escolares nas calçadas enquanto suas mães trabalham até altas horas da noite vendendo produtos ambulantes. A cena foi completamente incorporada à paisagem urbana. Em muitos casos, ela é romantizada como exemplo de esforço ou superação pessoal. Talvez aí resida uma das formas mais perversas da ideologia contemporânea. O sofrimento estrutural transforma-se em narrativa inspiradora.
A pobreza deixa de aparecer como fracasso coletivo e passa a funcionar como espetáculo moral. O pobre admirável é aquele que suporta silenciosamente a precariedade sem questionar as estruturas que a produzem.
Talvez a característica mais perturbadora do presente seja precisamente a incapacidade coletiva de imaginar alternativas históricas consistentes. Critica-se a corrupção política enquanto permanecem intactas as estruturas sociais que necessitam dela para continuar funcionando. Critica-se o neoliberalismo enquanto se reproduzem obsessões individualistas, competitivas e consumistas.
No Peru, décadas de instabilidade institucional, corrupção sistêmica e fragmentação social produziram um profundo ceticismo coletivo. A política deixou de ser imaginada como espaço de transformação histórica e converteu-se em simples administração pragmática do desastre.
A cidadania já não espera grandes projetos nacionais. Espera apenas pequenas reduções temporárias do caos cotidiano.
O nojo como forma de consciência
Talvez seja necessário recuperar o nojo como categoria crítica. Não o nojo moralista, nem a repulsa conservadora diante daquilo que escapa às normas sociais, mas um nojo capaz de revelar aquilo que a linguagem oficial tenta continuamente neutralizar. Existe um momento em que a realidade social torna-se tão degradada que a linguagem técnica já não consegue descrevê-la sem colaborar com sua própria normalização.
A modernidade neoliberal aperfeiçoou mecanismos sofisticados de higienização simbólica. Empresas falam em inovação, eficiência e sustentabilidade enquanto milhões de pessoas sobrevivem em condições degradantes, atravessadas por exaustão física, insegurança econômica e abandono cotidiano. Tudo precisa parecer funcional, racional e administrável, mesmo quando a vida coletiva começa lentamente a deteriorar-se.
No Peru e em grande parte da América Latina, convivemos diariamente com formas de violência social tão repetidas que já quase não produzem espanto. Crianças trabalhando informalmente, trabalhadores destruindo o próprio corpo em jornadas intermináveis, mães sobrevivendo entre dívidas e precariedade, bairros inteiros abandonados pelo Estado e uma geração crescendo sem horizonte coletivo consistente. Ainda assim, os discursos institucionais continuam falando em crescimento, empreendedorismo, modernização e progresso. Relatórios substituem sofrimento. Estatísticas substituem corpos. Indicadores econômicos substituem experiências humanas concretas.
Talvez o nojo apareça precisamente quando a distância entre discurso e realidade se torna insuportável. Quando percebemos que existe algo profundamente deteriorado em sociedades que normalizam exaustão, solidão e precariedade enquanto continuam produzindo narrativas otimistas sobre desenvolvimento. Nesse sentido, afirmar que consumimos a merda ideológica do sistema não se trata de vulgaridade gratuita. Trata-se de tentar nomear aquilo que o discurso político, empresarial e midiático procura esconder sob uma superfície limpa e tecnocrática.
Eu acredito que certas experiências históricas exigem linguagens menos domesticadas, menos obedientes e menos preocupadas em preservar a aparência de normalidade institucional. Existem momentos em que escrever de forma excessivamente limpa significa colaborar, ainda que involuntariamente, com a limpeza simbólica da própria violência social. Talvez a função crítica do nojo seja justamente romper essa anestesia coletiva e recordar que há formas de degradação tão profundas que já não podem ser descritas através da linguagem confortável do poder.
A política latino-americana tornou-se profundamente espetacularizada. Campanhas eleitorais já não se organizam em torno de projetos históricos consistentes, mas de estímulos emocionais rápidos, imagens calculadas e escândalos capazes de sobreviver apenas algumas horas antes de serem substituídos por novos escândalos. A lógica do entretenimento penetrou tão profundamente na esfera pública que muitas vezes já não sabemos distinguir informação de performance, debate político de espetáculo digital ou consciência crítica de simples reação emocional instantânea.
As eleições funcionam como reality shows permanentes. Candidatos produzem frases de impacto para circular nas redes sociais, escândalos de corrupção transformam-se em episódios seriados e declarações absurdas geram ciclos rápidos de indignação coletiva. Tudo precisa ser imediato, visualmente consumível e emocionalmente intenso. A política converteu-se em fluxo contínuo de estímulos.
No Peru, essa lógica tornou-se particularmente visível após décadas de instabilidade institucional, presidentes destituídos, crises parlamentares intermináveis e uma mídia que frequentemente transforma o colapso político em espetáculo cotidiano.
Nesse ambiente saturado, o cidadão passa a consumir política como quem consome qualquer outro conteúdo digital. Compartilha-se revolta, ironia, medo e humilhação na mesma velocidade com que se desliza o dedo sobre a tela. O excesso de informação já não produz necessariamente consciência crítica. Muitas vezes produz apenas fadiga emocional, ansiedade difusa e sensação permanente de impotência. A avalanche contínua de estímulos impede qualquer elaboração mais profunda da experiência coletiva. Tudo acontece rápido demais para ser realmente compreendido.
Talvez o aspecto mais perturbador seja outro. Começamos lentamente a desejar nossa própria degradação simbólica. Consumimos diariamente humilhações públicas, conflitos digitais, fake news, escândalos vazios e resíduos informacionais como se fossem formas inevitáveis de convivência social. Existe um prazer obscuro nessa saturação permanente, quase como se a violência simbólica tivesse deixado de parecer violência para transformar-se em hábito cotidiano.
A degradação torna-se entretenimento. E o entretenimento reorganiza lentamente nossa percepção da realidade. O problema já não é apenas a manipulação política tradicional, mas a transformação da própria experiência pública em espetáculo emocional contínuo. Talvez a forma mais eficiente de despolitização contemporânea não seja o silêncio, mas justamente o excesso permanente de ruído.
Para além do cinismo – o que estamos consumindo?
Uma crítica radical da sociedade não pode reduzir-se ao prazer melancólico de anunciar catástrofes. Existe hoje uma espécie de fascínio contemporâneo pelo colapso. Fala-se constantemente do fim da democracia, da falência das instituições, da degradação cultural e da precarização da vida, mas muitas dessas descrições acabam produzindo apenas paralisia. O desastre converte-se em paisagem cotidiana.
Aprende-se a conviver com ele como quem aprende a conviver com o ruído permanente de uma cidade saturada. No entanto, a desesperança absoluta também pode funcionar como forma de acomodação. Quando nada parece possível, qualquer tentativa de transformação torna-se imediatamente ridícula ou ingênua.
O neoliberalismo compreendeu profundamente essa lógica. Produziu sujeitos cada vez mais individualizados, incapazes de reconhecer no outro a continuação do próprio sofrimento. Ansiedade, esgotamento, solidão e sensação de fracasso aparecem como dramas íntimos quando, muitas vezes, são efeitos estruturais de uma organização social baseada na competição permanente e na insegurança contínua. A sociedade peruana convive hoje com contradições profundas. Crescimento econômico coexistindo com informalidade massiva. Modernização tecnológica convivendo com precariedade estrutural. Discursos democráticos sustentados sobre desigualdades históricas que jamais foram realmente enfrentadas. Talvez seja por isso que o mal-estar contemporâneo nem sempre se manifesta como revolta. Muitas vezes ele aparece como cansaço, ansiedade difusa e incapacidade de imaginar alternativas.
Vivemos em sociedades saturadas de discursos. Governos produzem narrativas de progresso, empresas vendem felicidade mercantilizada, influenciadores transformam precariedade em motivação pessoal e políticos reciclam promessas vazias como se a memória coletiva fosse incapaz de reconhecer seus próprios escombros. Consumimos tudo isso diariamente. Não apenas através das telas, mas também através da linguagem, dos hábitos e da forma como aprendemos a interpretar o mundo.
Talvez a principal função da crítica contemporânea consista justamente em recuperar essa pergunta: o que estamos consumindo simbolicamente todos os dias? Porque talvez o problema mais inquietante da nossa época não seja apenas consumir resíduos ideológicos continuamente, mas começar lentamente a confundi-los com a própria ideia de realidade.
*Hilder Alberca Velasco é mestre em Planejamento Urbano e Regional pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).




